Gás Natural

O gás natural é um combustível de origem fóssil e, como os demais combustíveis fósseis, é uma mistura de hidrocarbonetos gasosos originados da decomposição de matéria orgânica fossilizada ao longo de milhões de anos. Em seu estado bruto, o gás natural é composto principalmente por metano, com proporções variadas de etano, propano, butano, hidrocarbonetos mais pesados e também CO2, N2, H2S, água, ácido clorídrico, metanol e outras impurezas. Os maiores teores de carbono são encontrados no gás natural não-associado.

As principais propriedades do gás natural são a sua densidade em relação ao ar, o poder calorífico, o índice de Wobbe, o ponto de orvalho da água e dos hidrocarbonetos, e os teores de carbono, CO2, hidrogênio, oxigênio e compostos sulfurosos.

Além de insumo básico da indústria gasoquímica, o uso do gás natural aumentou nos setores industrial, de transporte e de geração de energia elétrica. O investimento na produção de gás para a geração de energia termo elétrica tem despertado o interesse de analistas e empreendedores, dado o esgotamento dos melhores potenciais hidráulicos do país e a necessidade de expansão do parque gerador de energia elétrica.

Vantagens do Gás Natural

  • Fonte de energia mais segura que o óleo
  • Mais leve que o ar
  • Dissipa facilmente em caso de vazamento
  • Melhoria significativa dos produtos fabricados
  • Aumento da vida útil dos equipamentos usados na fabricação
  • Baixo índice de emissão de poluentes
  • Baixo índice de odor e contaminantes
Característica de combustão Valores
Poder calorífico Superior a 9400Kcal/m3
Temperatura de ignição espontânea 540ºC
Velocidade de chama 30-50cm/s
Limite de inflamabilidade 5-15% em volume
Temperatura de chama 1.945ºC com ar
2.810ºC com oxigênio
Ponto de ebulição -16ºC
Ponto de fulgor -189ºC
Densidade absoluta 0,766kg/m(@20ºC; 1 atm)
Nitrogênio  

A cadeia de produção do gás natural

O processo de produção do gás natural tem quatro etapas distintas, são elas: (i) exploração e produção do gás natural, (ii) processamento; (iii) transporte e estocagem e (iv) distribuição.

As especificidades de cada uma dessas etapas fazem com que cada uma possa ser tratadas como negócios distintos. Em muitos países existe inclusive uma separação legal obrigatória entre esses elos da cadeia de forma a permitir uma regulação específica para cada um dos setores.

Exploração e Produção

As etapas de exploração e produção de gás natural são praticamente idênticas às do petróleo. De forma geral, são as grandes em presas de petróleo as responsáveis pela exploração e produção de gás natural, já que muitas vezes o gás e o petróleo encontram-se associados.

Processamento

Iniciada a produção do gás natural, esse deve passar por unidades de processamento de gás natural (UPGN). Essas estações de tratamento são responsáveis pela separação do metano dos demais hidrocarbonetos pesados (secagem do gás natural), pelo processo de dessulfurização, pela remoção da água e pela retirada de demais contaminantes. Em termos técnicos, as frações de hidrocarbonetos pesados são retiradas até um limite que não comprometa o poder calorífico mínimo para o gás natural.

Transporte

Após o  tratamento, o gás natural é levado aos centros consumidores por dutos ou na forma de  gás natural liquefeito (GNL) ou comprimido (GNC). A escolha da tecnologia  depende  de aspectos técnicos e econômicos.

Distribuição

Usa-se o termo “transporte” para referir-se à rede de dutos que leva o gás das plantas de produção até a malha de “distribuição” que, por sua vez, o leva até o cliente final: residencial, industrial, térmico ou comercial. Estas redes se diferenciam pelo diâmetro dos dutos e pela pressão do fluxo de gás. Enquanto na rede de transporte o gás natural é comprimido a uma pressão de 80bar em média (alta), na rede de distribuição esta nunca é superior a 20 bar.

O Transporte e a Distribuição do Gás no Brasil

Em 2013, o Brasil possuía uma rede de gasodutos com 9.190 km de extensão que percorre a costa brasileira de Porto Alegre à Fortaleza. Além disso, há um gasoduto ligando as áreas produtoras da Bolívia a São Paulo e outro ligando Urucu-Coari-Manaus, no meio da Amazônia. No Ceará, na Bahia e no Rio de Janeiro, o gás é trazido dos campos produtores no mar por navios e alimentado nas malhas de transporte e distribuição. Da Bacia de Santos, o gás é transportado via dutos até São Paulo, o Rio de Janeiro e Espírito Santo.

A distribuição do gás é feita por 27 distribuidoras cada qual atendendo um ou dois estado da federação. Delas 6 são independentes e 2 são controladas da Petrobrás. As 19 restantes são coligadas da Petrobrás.

O Uso do Gás Natural

O gás natural atende usos dos segmentos residencial, comercial, industrial e automotivo. P ode ser utilizado como combustível para fornecimento de calor e força motriz; como matéria-prima nas indústrias siderúrgica, química, petroquímica e de fertilizantes e como substituto do óleo diesel, da gasolina e do álcool em veículos. Estes atributos permitem sua utilização de forma quase irrestrita atendendo as determinações ambientais e de segurança. Por isso, sua participação na matriz energética mundial vem aumentando. 

Uso Energético Uso Químico
  • Uso industrial
  • Uso residencial, comercial e hospitalar
  • Termoelétricas
  • GNV-Veicular
  • GNL-Liquefeito
  • GNC-Comprimido
  • Gás de síntese - química do C1
  • Separação entre etano e propano: árvore do C2 e C3
  • Separação de mais pesados: C4 e condensados

Gás Não Convencional - Algumas Definições

Nos últimos anos, principalmente nos EUA, houve uma grande aceleração da produção de gás de fontes não convencionais que são gases naturais provenientes de formações rochosas de baixa permeabilidade e/ou porosidade. Tais como:

“Tight gas”

Gás natural contido em reservas semelhantes às convencionais, mas com arenitos ou calcários de baixa permeabilidade, que dificultam muito a migração do gás (ou dos líquidos). A liberação do gás requer, muitas vezes, a fratura hidráulica.

“Shale gas” 

Gás natural retido em camadas de xisto (folhelho), de baixa porosidade e permeabilidade, que é igualmente liberado for fratura hidráulica. A liberação do gás é dependente das características geológicas das camadas do xisto e das interfaces entre essas camadas.

“Coalbed methane” (CBM) 

Gás natural encontrado nos reservatórios de carvão, cuja liberação requer também fratura hidráulica. Chamado também de "Coal seam methane" (CSM).

Vale comentar que a fronteira entre gás convencional e o não-convencional não é definida univocamente e tende a variar no tempo com a evolução da tecnologia e a diminuição dos custos.  Por exemplo, hoje, nos EUA, o tight gas, que já representa 40% da produção total de gás, é incluído junto com o gás convencional nas estatísticas oficiais.

Gás Não Convencional no Brasil

Embora o Brasil tenha uma das maiores reservas de gás não convencional do mundo e a ANP esteja fazendo sísmica para definir áreas de licitação, os demais aspectos econômicos relacionados à produção do gás e óleo de xisto no Brasil diferem de forma material daqueles existentes nos EUA. Além da aquisição e/ou desenvolvimento da tecnologia, inexiste uma malha de gasodutos interligando as regiões nas quais estão as reservas aos centros consumidores e existem questões regulatórias e ambientais para serem equacionadas. Estas teriam que ser construídas diminuindo o retorno do empreendimento a não ser que a demanda pelo insumo cresça na velocidade que justifique o investimento.

Precificação do Gás Natural

A dinâmica de preços do gás natural difere bastante em cada mercado por causa dos seguintes fatores: (i) elevados custos de transporte; (ii) grandes diferenças no grau de difusão do gás nas matrizes energéticas de cada país ou região; (iii) assimetrias na dotação de recursos gasíferos e (iv) grau de maturidade e de liberalização do mercado de gás nacional.

O preço final ao consumidor depende não só do preço da matéria-prima, mas, também, dos custos de transporte e distribuição que podem representar mais do que 50% do preço final do gás. Portanto, o preço varia muito de mercado para mercado.

Os preços do efetivamente praticados para o gás dependerão da facilidade de substituição e a necessidade de remunerar os investimentos feitos para o provimento. Apesar dessas condições, que impactam a precificação em mercados específicos, historicamente, o preço da “commodity” tem mantido uma relação direta com o preço do petróleo e de seus derivados.

Precificação do gás em contratos de longo-prazo

Com o intuito de dar alguma estabilidade ao retorno do investimento na produção, transporte e distribuição do gás, alguns mercados/fornecedores trabalham com contratos de longo prazo. Estes, em geral, após a negociação do preço inicial, contém uma fórmula de ajuste de preços que indexa o preço do gás ao do petróleo ou ao de energéticos concorrentes. É comum conterem cláusulas “take or pay” nas quais o comprador assume a obrigação de pagar uma parte da quantidade total de gás natural contratada durante um período especificado, independentemente se há ou não consumo. Também podem conter exigências volumes mínimos pela utilização dos dutos, sendo, nesses casos, as cláusulas conhecidas como de “ship or pay”.

Precificação do gás em mercados liberalizados

Em algumas regiões ou locais há a prática de preços spot, no entanto, para que isto ocorra algumas pré-condições são necessárias: (i) interconexão entre gasodutos que permita a troca de gás entre diferentes sistemas; (ii) capacidade de estocagem; (iii) facilidade de transporte a partir e para o “hub” (entroncamentos de interconexão entre gasodutos que transportam gás de diferentes bacias e áreas com grande capacidade de estocagem); (iv) possibilidade de oferta de serviços auxiliares, como balanceamento do sistema e de despacho de gás; (v) transferência de titularidade de contratos de suprimento de gás e capacidade de transporte e (vi) mercado de curto prazo “spot”.

O mercado nos Estados Unidos

Os EUA foram os pioneiros na liberalização da indústria do gás natural, processo que resultou em um pujante mercado gasífero com a adoção de novas formas de precificação. O país possui um parque produtivo e uma infra-esturura de transporte que viabilizaram o surgimento mercados spot (físico) e de derivativos (financeiro) para o gás natural.

Com mais de 8.000 produtores de gás que concorrem entre si, em 2009, a América do Norte possuía 33 “hubs” ativos dos quais nove no Canadá e 24 nos Estados Unidos. O Henry Hub, no estado americano de Louisiana é o maior centro de comercialização de gás do mundo conectando 12 gasodutos e detentor de três reservatórios para estocagem. Os preços do gás comercializados no “hub” são facilmente acessíveis (visibilidade e transparência) e servem como ponto de referência para os contratos de futuros e derivativos de gás negociados nas bolsas eletrônicas da NYMEX e da Inter Continental Exchange (ICE).

O mercado na Europa

A Europa é essencialmente importadora de gás, não tendo em seu território produtores concorrendo entre si – a oferta é concentrada. No entanto, enxergando as claras vantagens conferidas por mercados organizados nos quais há transparência de preços, a bolsa eletrônica International Petroleum Exchange (IPE) no Reino Unido, passou a utilizar os preços praticados no National Balancing Point (NBP), também daquele país, como indexadores para contratos futuros de gás. Diferentemente do Henry Hub, o NBP é um hub virtual, refletindo os preços do gás negociado e transportado pela rede da Transco. A partir de janeiro de 1997, quando isto ocorreu, os valores de contrato negociados no NBP tornaram-se referência para os preços de gás na Europa e o mercado de gás natural na Inglaterra passou a ser, junto ao mercado norte-americano, um dos mais competitivos e líquidos do mundo.

Neste mercado, observa-se uma tendência de alinhamento em médio prazo entre os preços do gás mercado spot e os dos contratos de importação indexados ao preço do petróleo. É por essa razão que, a partir de 2009, quando o preço do petróleo subiu de um patamar de US$ 40 para US$ 100 por barril, o preço do gás no NBP acompanhou, se distanciando daqueles praticados no Henry Hub. No mercado Europeu, os preços do gás são influenciados pela oferta de petróleo, enquanto os EUA, que possuem produção própria, a dinâmica de preços depende da oferta interna daquele país.

Outras partes do mundo

Ao contrário dos EUA e Europa, o preço do gás natural em outras regiões do mundo não é definido por mercados spot, seja do mercado de gás, seja do mercado de petróleo. Segundo a International Gas Union (IGU), metade do gás consumido no mundo não é precificado com base em regras de mercados públicos, seja mercado spot ou contratos baseado no preço do petróleo.

Conforme tal publicação, em 2010, 15% do gás consumido em diversos mercados internos ao redor do mundo, o produto foi precificado abaixo do custo de produção e reposição das reservas. Isso acontece principalmente na Rússia, Oriente Médio e em alguns países da África. Em outros países (14% do gás consumido em 2010), o preço do gás natural é regulado e obedece a critérios sociopolíticos. Portanto, o preço é definido por governos em bases irregulares e de acordo com pressões sociais e políticas. A evidência de que nessas regiões do mundo o preço do gás não é determinado por condições de oferta e demanda é a discrepância que existe entre o preço do gás exportado, alinhado ao mercado internacional, daquele praticado no mercado interno.

O mercado no Brasil

No Brasil a estrutura de oferta e demanda de gás é caracterizada pela existência de quase um único vendedor e quase um único comprador. Por um lado, a Petrobras é praticamente a única fornecedora e do outro, as distribuidoras estaduais, privadas ou não, são as únicas consumidoras, várias controladas ou com participação acionária da própria Petrobrás. Além disso, a estatal é proprietária dos gasodutos, tendo bastante controle sobre o preço final. Portanto, o preço do gás não se estabelece pelo equilíbrio entre a oferta e a demanda.

Os preços estão ligados a um valor de referência de base, mas que contem uma cláusula de escalonamento associada ao preço do combustível, matéria-prima concorrente cujo valor está atrelado ao preço do petróleo. Além disso, sofrem reajustes trimestrais para a inflação e para a variação cambial medida pelo dólar Ptax (BACEN). Há uma fórmula para o gás nacional e outra para o gás importado (Bolívia). Em cima destes preços, as distribuidoras estaduais colocam sua margem de distribuição. Tanto elas como as margens que praticam são reguladas por agências reguladoras estaduais.

Adicionalmente, existem preços diferenciados para o setor elétrico, PPT (programa prioritário termelétrico), para algumas térmicas e, atualmente, para o preço do gás GNL internacional (indexados ao Henry Hub ou Brent). 

 

Última atualização em 2015-04-30T15:55:10

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